
Introdução
À medida que se aproxima a Cimeira do G20 de 2025, em Joanesburgo, África do Sul, as nações reuniram-se, em 2025, para a Quarta Conferência Internacional de Financiamento do Desenvolvimento (FFD4). O governo sul-africano preside o G20 de 1 de Dezembro de 2024 a Novembro de 2025, o que marca cinco anos antes do prazo da Agenda 2030 dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (ONU). Tal implica que o debate sobre o desenvolvimento está num momento crítico.
A FFD4 surgiu como um marco crítico no discurso global sobre desenvolvimento, tendo articulado uma estrutura de financiamento global renovada com o objetivo de colmatar o impressionante défice de financiamento anual de 4 biliões de dólares para a realização dos ODS. O défice total de financiamento para África é de 1,7 biliões de dólares por ano (ou seja, 40% do défice total de financiamento).
Ao mesmo tempo, a importância do Grupo de Trabalho sobre Desenvolvimento (DWG) do G20 na promoção do desenvolvimento em todo o G20, e em todo o mundo, é uma componente essencial para a consecução dos ODS. De modo particular, deliberar sobre as prioridades do DWG durante a Presidência sul-africana do G20, nomeadamente Bens Públicos Globais (GPG), Financiamento para o Desenvolvimento, Fluxos Financeiros Ilícitos (FFI) e Pisos de Proteção Social (SPF). Dado o papel da mobilização de recursos internos (DRM) nas prioridades do DWG do G20, o Fórum Africano de Administração Tributária (ATAF) é membro do Grupo de Trabalho do DWG do G20. Além disso, devido ao seu apoio à igualdade de género, o ATAF é membro do Grupo de Trabalho para o Empoderamento da Mulher do G20 (G20 EWWG).
Este artigo descreve o papel essencial que a DRM desempenha no financiamento do desenvolvimento, conforme destacado na Conferência FFD4, onde a ATAF comprometeu-se a responder através da sua iniciativa, Revenue Action for Development in Africa (RADA). Isto significa que o papel da DRM foi ampliado. A RADA é um programa criado para ajudar continente africano a financiar o seu próprio desenvolvimento no futuro. Neste caso, uma das prioridades do G20 DWG são os FFIs , e a relevância da política fiscal para promover a igualdade de género tem sido destacada pelo G20 EWWG.
Os ODS e o papel da DRM
Não há dúvida de que a concretização dos ODS aproximaria a África do ponto em que precisa estar em termos de desenvolvimento básico. No entanto, faltando 5 anos, uma série de choques e outros factores endógenos e exógenos tem dificultado muito prossecução dos ODS. Em 2024, as Nações Unidas (ONU) previam que apenas 17% das 135 metas dos ODS estavam bem encaminhadas para serem alcançadas até 2030. Observou-se que o restante dos ODS estava a ter um progresso insignificante, estagnado ou a regredir, pelo que a insegurança alimentar, a fome, a falta de infra-estruturas e serviços básicos continuaram no Continente.
Entre outros factores, a escassez de fundos orquestrada pela diminuição da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), parcos recursos públicos internos e o alto custo de acesso e serviço da dívida foram identificados como um grande obstáculo à realização dos ODS. O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) identificou um défice de financiamento anual de 4 biilhões de USD, bem acima dos 2,5 bilhões de 2015, demostrando maior défice das necessidades de financiamento.
À luz do exposto, o G20, sob a presidência da África do Sul, observou a relevância da revisão e reorientação da DRM como componente importante num conjunto de opções de financiamento necessário para alcançar os ODS. O potencial da DRM reside na sua capacidade de reduzir a dependência do financiamento externo volátil e recuperar o espaço da política fiscal. Os impostos continuam a ser uma importante fonte de financiamento orçamental para o Continente. No entanto, analisando a relação impostos-PIB a nível do Continente, esta fica aquém do limiar de 15% considerado necessário para o desenvolvimento sustentável. Destaque-se que é necessário um aumento de 1% na relação impostos-PIB para gerar um rendimento adicional de 35 mil milhões de dólares anuais (totalizando 350 mil milhões de dólares até 2030), diminuindo assim o défice de financiamento.
Conter os fluxos financeiros ilícitos para financiar o desenvolvimento
Os esforços de DRM continuam significativamente prejudicados pelos fluxos financeiros ilícitos (FFI). O ATAF afirma que o reforço da DRM requer uma abordagem multifacetada, incluindo reformas tributárias e comerciais, melhorias na administração tributária e aduaneira, expansão da base tributária, combate aos FFI motivados por questões tributárias (Ex.: transferência de preços falsos, preços comerciais falsos ou facturação falsa), gestão eficaz das receitas dos recursos naturais, promoção do cumprimento voluntário, aproveitamento das tecnologias, adopção de identificadores únicos, medidas contra a corrupção e melhoria da transparência para reforçar a cooperação transfronteiriça. Além disso, a implementação do intercâmbio automático de informações tributárias e aduaneiras e a divulgação da propriedade efectiva podem reduzir as fugas financeiras.
Assim sendo, o ATAF observou o papel fundamental de uma abordagem multifacetada para combater os fluxos financeiros ilícitos motivados por questões tributárias nas negociações do DWG do G20. Além disso, o ATAF sublinhou a relevância da DRM na redução do défice de financiamento para o desenvolvimento como um marco significativo na promoção da transformação e dos recursos necessários para financiar o desenvolvimento, estando patente que o DWG do G20 reconheceu que o financiamento não é apenas um debate dos ministros das Finanças, mas também dos ministros do Desenvolvimento. Além disso, tal demonstrou o espírito de consenso e cooperação entre os membros do G20, o que foi saudado pela Sr.ª Josephilda Nhlapo-Hlope, presidente do G20 DWG e facilitadora de resultados do Departamento de Planeamento, Monitorização e Avaliação (DPME): “O que testemunhámos em Skukuza foi mais do que uma reunião, foi um compromisso colectivo com a solidariedade global. Estamos a presenciar uma voz mais forte do Sul Global que está a moldar o futuro da cooperação multilateral para o desenvolvimento.»
Trazer a prioridade dos FFI para o G20 DWG foi um sucesso da presidência sul-africana, que defende o combate aos FFI e o financiamento do desenvolvimento. O ATAF espera fazer parte dos redactores do roteiro para a implementação dos princípios voluntários e não vinculativos de alto nível de combate aos FFI conforme a directiva do G20.
DRM e igualdade de género
Um bom sistema tributário pode apoiar a consecução dos ODS em África. De modo particular, no caso do quinto ODS, a promoção da igualdade de género e o empoderamento da mulher são componentes essenciais de reformas eficazes da DRM, apoiando um crescimento económico inclusivo e sustentado.
A mulher representa mais de metade da população africana. As disparidades de género no continente africano revelam uma enorme desigualdade; a diferença salarial média demonstra que a mulher ganha cerca de 39 % menos do que o homem. Nas administrações tributárias, a representação da mulher em cargos de liderança é desigual. Na Perspectiva Tributária Africana (ATO) de 2023, a mulher representou cerca de 40 % da força de trabalho, mas apenas 27 % da direcção executiva de 2022. Em 2024, dos 44 países membros do ATAF, apenas 8 (ou seja, 16 %) são liderados por comissárias-gerais, daí a relevância do compromisso do ATAF de promover a igualdade de género através de sistemas tributários, por meio da Rede do ATAF para a Mulher na Tributação (AWITN), para moldar e implementar estratégias que promovam a igualdade de género no recrutamento, oportunidades e liderança do sector tributário, e defender uma nova abordagem de recolha de dados na tributação africana, com foco em relatórios sensíveis ao género.
Tendo em conta o o seu compromisso assumido através da AWITN, o ATAF participa no Grupo de Trabalho do G20 para o Empoderamento da Mulher (G20 EWWG). O G20 EWWG apoia as prioridades do G20 para o avanço da mulher, incluindo o combate à violência de género e feminicídio; o combate às desigualdades no local de trabalho através do aumento da participação da mulher na força de trabalho; a eliminação da disparidade salarial entre homens e mulheres; a abordagem da economia dos cuidados; e a promoção da inclusão financeira da mulher.
Dada a prioridade do G20 EWWG de combater as desigualdades no local de trabalho e tratar da economia dos cuidados, a AWITN precisa de demonstrar o papel do ATAF na promoção do empoderamento da mulher e considerar o papel da tributação em questões como a economia dos cuidados a nível do Continente. Além disso, é necessário que os países aumentem a DRM e apoiem políticas transformadoras de género no lado das despesas que permitam à mulher obter rendimentos em vez de prestar cuidados não remunerados, tais como cuidados de saúde gratuitos, educação, acesso à água, proteção social ou instituição de pagamentos sociais para o trabalho de cuidados.
Conclusão: do compromisso à ação
A recente Declaração Ministerial de Skukuza sobre Desenvolvimento feita pelo G20 em 2025 inclui compromissos significativos do G20 no combate aos FFI. Para a Presidência sul-africana, a histórica adopção de um apelo à acção no combate aos FFI é um marco substancial que afirma o comprometimento do G20 com o Compromisso de Sevilha do FFD4.
Portanto, como parte da RADA, o ATAF deve acompanhar um contribuinte-chave nas próximas etapas do Apelo à Acção no Combate aos FFI, participando da elaboração do roteiro para a implementação dos princípios voluntários e não vinculativos de alto nível para combater os FFI conforme a orientaçãoo do G20. A ATAF aguarda expectante por outros compromissos do G20 sob a presidência da África do Sul, incluindo o Rastreio Financeiro do G20 e o EWWG.
Estudos do ATAF apelam à criação de sistemas fiscais mais sólidos, estruturados e sensíveis às questões de género em toda a África
Os membros do Comité Técnico Conjunto (CTC) são exortados a promover as soluções do ATAF em toda África
República do Congo torna-se 45.º membro da ATAF
A Zâmbia lança o Rastreador de Políticas contra os Fluxos Financeiros Ilícitos para intensificar os esforços de combate a esses fluxos
O ATAF publica o seu relatório anual de 2025, que destaca a influência crescente da organização na mobilização de receitas fiscais em Africa
Transformar as normas de transparência fiscal em medidas concretas
Reforçar as soluções regionais para os desafios fiscais comuns na África Oriental
O Lesoto leva adiante os planos para o quadro fiscal aplicável a pessoas singulares com elevado património líquido
Uma política eficaz em matéria de convenções fiscais — Um instrumento fundamental para combater a erosão da base tributável e a transferência de lucros em África
As Seychelles reforçam as suas capacidades em matéria de preços de transferência e imposto mínimo global
For media enquiries contact: communication@ataftax.org or call us on 079 790 2960
Share this article